Escravo de Mim - O Poder do Cérebro sobre a Razão (e como assumir o Controlo)
- 15 de dez. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 31 de mar. de 2024
"Tenho uma voz na minha cabeça mas não é minha!" Pink Floyd
E tu? Estás ao leme da tua vida? comandas o teu cérebro ou é ele que te comanda a ti?
Neurofeedback e Neuromodulação

O poder do cérebro sobre a razão?
"Tenho uma voz na minha cabeça mas não é minha!" Pink Floyd. Esta frase resume a luta de muitas pessoas que se sentem controladas pelos seus próprios pensamentos e emoções, ou seja, pelo seu cérebro inconsciente. Tomemos como exemplo as palavras que Charles Whitman escreveu na sua carta de suicídio pouco depois de ter morto a mãe de forma premeditada:
“A quem interesse: eu matei a minha mãe. Estou muito chateado com o que fiz. Contudo, acredito que se existir um céu, ela de certeza que está lá [...] Tenho muita pena [...] Que não existam dúvidas que eu amo esta mulher com todo o meu coração."
A chocante história, de Charles Whitman, retrata a dimensão do sofrimento que pode advir da perda total do domínio de si face a forças inconscientes. A 1 de Agosto de 1966 Charles sentou-se à secretária e acabou de redigir a carta que tinha começado no dia anterior, escreveu do lado de fora de um envelope : "Pensamentos do dia", onde colocou um conjunto de conselhos escritos:
“Estes pensamentos são demais para mim. [...] Falei com o médico uma vez, durante cerca de duas horas, e tentei transmitir-lhe os meus receios de que me sentia esmagado por avassaladores impulsos de violência. Depois de uma sessão, nunca mais voltei a ver o médico e, desde então, tenho estado a lutar sozinho contra o meu tumulto mental e, pelos vistos, sem êxito "
Whitman descreve nestas palavras a força gigantesca com que lutava no seu interior. Pensamentos e emoções que escapavam ao controlo da sua consciência, vastas selvas de neurónios a operarem os seus próprios programas de forma autónoma e contra a vontade do próprio. A parte consciente de Whitman, aquela que despertava para a vida quando este acordava de manhã, tinha-se tornado refém e ficado a assistir na bancada ao cérebro a orquestrar o seu próprio espectáculo.
“[...] Não percebo o que me leva a escrever esta carta. Talvez para deixar uma vaga razão das acções que recentemente fiz. Não me percebo nestes dias. É suposto eu ser um jovem razoável, inteligente e normal contudo, ultimamente (não consigo determinar quando começou) tenho sido vítima de vários pensamentos irracionais e pouco usuais. [...] Foi depois de pensar muito no assunto que decidi matar a minha mulher, Kathy, esta noite…. Amo-a muito, e ela tem sido uma boa mulher para mim, como qualquer homem poderia esperar. Não consigo racionalmente identificar quaisquer razões específicas para fazer isto…..".
Whitman apercebeu-se corretamente que a sua mente consciente, o Eu, simplesmente não tinha acesso ao botão de off destes programas desviantes o que gerava perplexidade e uma total incapacidade de travar os impulsos violentos que o levaram a conduzir o seu carro até ao apartamento da mãe onde a matou e colocou na cama, deixando a nota ao lado do seu corpo. Voltou depois para casa onde matou a sua mulher.
“8/1/66 3:00 AM. Ambas mortas. Imagino que pareça que matei brutalmente os dois amores da minha vida. Eu apenas estava a tentar fazer um trabalho rápido [...] Se o meu seguro de vida for válido, por favor paguem as minhas dívidas [...] doem o resto anonimamente a uma fundação de doentes mentais. Talvez a investigação previna outras tragédias deste tipo "
No dia seguinte subiu ao último piso da Torre da Universidade do Texas em Austin, matou 14 pessoas e feriu 32 antes de ser abatido.
Mente indomável: Explorando os limites do controlo e os mecanismos por trás da tragédia de Charles Whitman.
“O cérebro é um órgão complexo e poderoso que nos pode controlar de maneiras que nem sequer imaginamos". - Dr David Eagleman, neurocientista
Eis a grande questão? Quem é soberano? Nós? Nas palavras de Whitman ele não se sentia soberano de si, senhor de si próprio… Sentia-se subjugado por uma força maior. Que força é esta que nos impele por vezes contra a nossa própria vontade? Contra a mente consciente, muitas vezes em detrimento de nós próprios e no limite daqueles que amamos também. Whitman pediu para que o seu cérebro fosse entregue para investigação e assim foi, tendo-se encontrando uma alteração em localizações pré frontais capaz de justificar a alteração de comportamento e razoabilidade.
Decorre daqui naturalmente a dúvida: “somos assim tão vulneráveis? Basta a modificação da configuração de uma estrutura cerebral, decorrendo daí uma alteração de funcionamento da mesma para que deixemos de ser senhores de nós próprios ao ponto de matar quem amamos? Quão vulnerável é a nossa consciência? Qual o grau de domínio que temos sobre as nossas emoções, pensamentos e no limite sobre a vida que levamos?”
Questões pertinentes que Whitman pediu para serem exploradas e cujas respostas podem de fato salvar vidas, de forma literal e também de forma menos directa permitindo reassumir o controlo, ganhar consciência da pouca mestria e do quão vulneráveis somos ao funcionamento da estrutura que nos constitui.
“És senhor de ti? Como o podes ser sem saberes com que desafios te confrontas a partir do teu interior, do teu inconsciente ?
Actualmente, o estado de arte em Neurociências presenteia-nos com informações fascinantes sobre como as lesões e disfunções cerebrais podem causar desequilíbrios entre a mente consciente e inconsciente. Dependendo da localização e da gravidade destas condições (sendo que na disfunção a estrutura cerebral permanece intacta, mas a função é alterada), podemos observar diversos níveis de comprometimento cognitivo, instabilidade emocional e perda do controlo do comportamento. É como se a mente consciente, que normalmente divide o palco com os processos inconscientes, nestas circunstâncias perdesse temporariamente o controlo ou enfrentasse desafios adicionais para mantê-lo.
Saberes da integridade e potencial do teu substrato neuronal permite-te saber ao certo com que forças te confrontas diariamente. Esse conhecimento é possível! E esse grau de mestria no controlo de ti também!
A capacidade do cérebro humano para se reinventar e superar desafios é verdadeiramente extraordinária. Reflecte a incrível complexidade e resistência da nossa espécie. O cérebro, dotado de um incrível dinamismo e uma notável capacidade, procura constantemente o equilíbrio e a adaptação através da plasticidade neuronal. Ou seja, esforça-se por compensar as suas próprias deficiências e disfunções.
Às vezes, ao priorizar a sobrevivência, o cérebro pode inadvertidamente criar obstáculos para o Eu consciente ou comprometer a qualidade ou tipo de vida que desejamos para nós próprios (como observado em alguns casos de doença epiléptica). Noutras situações, os mecanismos implementados em determinado momento podem tornar-se obsoletos mais tarde, e o cérebro, por si só, encontrar dificuldades em se livrar deles, como acontece em situações de trauma.
Cabe acrescentar ainda a esta equação todas as respostas biológicas programadas que este substrato neuronal trás desde o nascimento e que também constituem desafios à mente consciente. Mas sobre isso falarei numa próxima publicação.
“És Senhor de ti? Podes sê-lo! "
Vou pôr o meu cérebro a descansar e volto em breve :)
**Leituras interessantes
1. Boland C, Jalihal V, Organ C, Oak K, McLean B, Laugharne R, Woldman W, Beck R, Shankar R. EEG Markers in Emotionally Unstable Personality Disorder-A Possible Outcome Measure for Neurofeedback: A Narrative Review. Clin EEG Neurosci. 2021 Jul;52(4):254-273. doi: 10.1177/1550059420937948. Epub 2020 Jul 8. PMID: 32635758.
2. The Lancet Psychiatry. Brain in vain? Lancet Psychiatry. 2017 Nov;4(11):819. doi: 10.1016/S2215-0366(17)30404-2. PMID: 29115244.
3. [O Poder da Plasticidade Cerebral](https://www.scientificamerican.com/article/the-power-of-brain-plasticity/)
4. Nigro SE. The Efficacy of Neurofeedback for Pediatric Epilepsy. Appl Psychophysiol Biofeedback. 2019 Dec;44(4):285-290. doi: 10.1007/s10484-019-09446-y. PMID: 31407122.
5. [Stephen Hawking: Uma Breve História da Sua Vida](https://www.hawking.org.uk/)
6. [Phineas Gage: A Gruesome but True Story About Brain Science](https://www.pbs.org/wgbh/aso/databank/entries/dm52ga.html)



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